quinta-feira, fevereiro 28, 2008

"Todos queríamos que o dia chegasse"


(para quem se lembrar deste post)


"Todos queríamos que o dia chegasse mas quando tal aconteceu parecia que não estávamos preparados. Confesso que me senti muito confuso, pois estava eufórico por estar a iniciar a concretização de um sonho meu, por um lado, e por outro sabia que estava a caminhar para um abismo, no sentido de não saber o que aconteceria a seguir. Era completamente natural porque sempre vivi com os meus pais e ter que me separar deles e da minha rede de convivência era um desafio.

O facto de realizar uma viagem com escalas também me fazia confusão, apesar de ouvir uma voz interior dizendo "não te preocupes, vai dar tudo certo". Foi um dia muito difícil...

Durante a viajem não tive nenhum problema, a não ser o stress em Paris, por não ter muito tempo para fazer o percurso necessário de um voo para o outro. Cheguei a perder o telemóvel no avião, mas, felizmente, uma das pessoas apanhou-o e perguntou a quem pertencia.

Quando cheguei a Lisboa, depois de tanto tempo à espera da mala e não tê-la apanhado, sai e encontrei logo a Sra. Alida a minha espera.

Os primeiros dias:

Não preciso dizer que isto é diferente de Maputo... Mesmo assim o choque não foi grande. Era tudo novo, mas nada estranho... Graças ao Peixe consegui "adaptar-me" com muita facilidade. Ele teve muita paciência comigo e ajudou-me em tudo o que precisei.
Logo no 1ºdia o Peixe e o João Rebelo levaram-me ao Colombo e cheguei a casa depois da meia noite. Nessa altura estava hospedado na pousada da juventude.

Nessa altura não me sentia à vontade por estar preocupado com a mala, que nunca mais chegava... Sem a ajuda da Joana não sei o que seria de mim...

As aulas:

Cheguei na 3ª e as aulas acabavam na 6ª da mesma semana. No 1º dia queria ir logo às aulas, mas a Sra. Alida disse que era melhor descansar... Queria muito ir ao ISCTE, mas como não sabia como chegar até lá, tive que ficar em casa...

No dia seguinte fui às aulas. Encontrei a Tamara na cantina e apresentou-me alguns colegas. A delegada de turma apresentou-me aos professores. Alguns desejaram-me boa sorte, outros disseram que podia "tentar, mas não conseguia".

Nessa altura estavam na fase de esclarecimentos de dúvidas. Nas únicas duas aulas de matemática que pude assistir entendi 60% dos exercícios resolvidos. Alguns colegas disseram-me que só se fizesse exercícios durante noite e dia até o dia do exame é que conseguia passar, e com muita sorte. A professora também pensava o mesmo...

Quando as aulas terminaram continuei a tentar estudar, mas sentia que faltava qualquer coisa. Só depois do natal e fim-de-ano é que comecei a sentir que o que vinha a fazer não era nada. Lembro-me que no 1º dia que estudei com a Tamara ela disse: "Amerali... tu não sabes nada! O que andaste a fazer esse tempo todo...?". Não consegui responder... Mas logo a seguir ela disse que ia me ajudar e que juntos íamos estudar para os exames.

Estudei muito. De dia e de noite. Nem sempre estudava como devia ser, mas nunca tinha estudado tanto na minha vida! Cheguei a ficar com dores de cabeça...

O professor João Figueira ajudou-me muito. Teve muita paciência comigo. Em 4 sessões aprendi muita matéria.

Os resultados:

O primeiro não foi nada motivante: 3 ou 4 a contabilidade financeira; introdução a gestão 10: foi motivo de muita alegria!!! Economia reprovei e o resultado não apareceu, na pauta só estava escrito "reprovado"; matemática na 1ª fase não consegui fazer nada, tive 0,5 e direito 7. A primeira fase não foi nada produtiva, mas já tinha garantido a "não-reprovação". Para a 2ªfase estudei mais ainda e matemática tive 10 (foi a melhor coisa que me aconteceu desde que cheguei a Lisboa). Pulei, gritei, sorri,... parecia uma criança de tanta alegria. Foi ai que acreditei muito mais em mim. Direito o professor disse me qe escrevo muito bem, mas no 1º exame não tinha estudado quase nada, por isso dediquei duas tardes ao estudo do direito e tive 13.

Resumindo: Mat: 10; Intr. Gestão: 10 e Direito: 13. Ficaram para trás economia e contabilidade financeira.

Natal e fim de ano:

Passei o natal em Alverca, na casa da tia do Peixe. Gostei. É muito diferente, mas foi engraçado, até me vesti de pai natal!!! A família foi muito simpática comigo e consegui estar a vontade.

A passagem de ano foi em Odivelas, na casa da amiga da namorada do Peixe. O Litos já estava cá, mas como veio tarde não deu para incluí-lo na lista dos convidados...

Mas foi divertido e logo no dia seguinte encontrei-me com o Litos, até porque nessa altura tentava estar com ele todos os dias.

O 2º semestre:

Não começou da melhor forma porque muitos professores faltaram e depois aceleraram muito o ritmo das aulas. Mas até agora tem corrido tudo bem. Ainda não estou à vontade com os meus colegas, mas com o tempo isso resolve-se.

Relação com a Fund. AGA KHAN:

a) Geral
Cada dia que passa a relação com a fundação tem melhorado bastante, falo por mim... Apesar do Dr.estar a prometer os computadores desde o Hotel Polana e até hoje estamos sem eles... Esse é um caso à parte, mas não deixa de ser crítico. Muitas vezes preciso de usar o computador porque os professores mandam trabalhos a qualquer hora e o prazo de execução é muito curto.

Estou com esperança que este impasse seja resolvido até o fim da próxima semana. Na 2ª tive teste de informática e não tinha praticado nada do que foi dado nas aulas. A minha "sorte" é ter percebido tudo nas aulas e a matéria é relativamente simples por ser o princípio... Mas quero acreditar que em breve teremos os computadores, senão a vida vai ficar muito mais complicada.

b) $
A questão dos valores da bolsa ficou por ser resolvida esta semana. Tenho feito uma gestão rígida do dinheiro que a fundação dá.

EU

Estou com muitas saudades do meu Moçambique e de todos. Agora dou muita importância à liberdade, que muita cedo conquistei, e a autodisciplina, pois sem eles não estaria a "sobreviver" aqui em Lisboa.

A minha residência tem muitos estudantes erasmus e internacionais, por isso fala-se muito inglês. No geral todos têm sido simpáticos, no mínimo cordiais, comigo. Tenho feito muitas amizades aqui na residência e cada dia sinto-me mais em casa! Os staff da residência também tem sido muito simpático comigo...

Em suma, estou bem! Estou a dar o melhor de mim porque só assim me sinto bem comigo e, para mim, é a melhor forma que tenho de dizer "KHANIMAMBO" a todos os que têm confiado em mim e me têm dado força para prosseguir, especialmente a si.

Agora vou passar a te escrever 1vez por semana a contar as "maluquices" do dia-a-dia.

Beijos,



Amerali Américo Sambo"

2 Comentários:

Anonymous Anónimo disse...

Dina/Toi
Khanimambo por partilharem

Amerali Sambo
Força por aí que deve estar a ser bem mais difícil do que descreves, mas como tu dizes as dificuldades ultrapassam-se com trabalho e empenhamento.

Paula

6:09 da manhã  
Anonymous Anónimo disse...

Esta é mais uma história de luta que, com a vossa ajuda,vai ter um final feliz. Os caminhos são duros, mas ele tem garra...
Obrigado por a terem partilhado!
Bjs Olga

7:25 da manhã  

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